sexta-feira, 9 de junho de 2017

TIPS&TRICKS por Delson Neto: Steampunk e o "caminho de volta" - NOSTALGIA, de Nana Lees, em perspectiva!

Hey, galerinha! Tudo bem com vocês?

De vez em quando gosto de variar o nosso repertório literário aqui na minha coluna TIPS&TRICKS mesclando resenhas a pequenas reflexões propostas a cada leitura que faço. Temos as já habituais resenhas dos mangás, mas agora vamos nos encaminhar a programações variadas com um pouco do universo nipônico, devaneios, dicas literárias, cultura pop – e breves impressões de algumas obras nacionais lidas.

No último mês tive a oportunidade de enfim apreciar uma obra que eu já namorava antes de sua mudança de casa editorial, muito antes de eu me aproximar da incrível autora. Em Maio pude ler do início ao fim o livro “Nostalgia” da autora Nana Lees – não diria ler, corrigindo, em Maio pude viajar pelas páginas dessa história peculiar.






Temos uma tendência muito grande de nos preocuparmos com o futuro: o que será? O que virá? Qual a próxima novidade? Contudo, temos essa necessidade de explorar os possíveis avanços sociais e tecnológicos pautados unicamente no nosso apego ao passado. Toda mudança gera medo, então é normal que ela também nos deixe ansiosos, recuando passos, apreensivos acerca daquilo que está por vir, pois não queremos abrir a mão de tudo que já se foi. Assim aconteceu com a partida das fitas VHS das nossas casas, quando foram substituídas pelos DVDs; das vitrolas, quando os CDs chegaram para depois também terem o território invadido pela presença das mídias portáteis. E hoje olhamos para estes objetos com apreço, mas a pergunta permanece: o que vem depois disso?

Ilustração dos personagens de Nostalgia, pelo artista Leonardo Araújo

O steampunk tem muito dessa sensação – memórias de um tempo que se foi, mas para o qual o corpo sente necessidade clara de voltar. E assim há a revolução industrial e a permanência das máquinas a vapor nesta vertente da ficção científica (um “braço” do subgênero cyberpunk) em que o mundo ainda é uma visão do passado, mas cercada de uma possibilidade de futuro que nunca aconteceu. Toda essa ideia de retorno ao que talvez tenha sido – e não necessariamente ao que foi – está presente em Nostalgia: não haveria um título melhor para definir cada linha dessa história onde cada engrenagem foi encaixada ao longo da narrativa, fazendo o trem partir de uma estação a outra, colidindo com o leitor no final.





Somos colocados no mundo sem eira nem beira. Chegamos à estação da vida sem um convite, simplesmente somos deixados desprovidos de nossas malas de viagem diante dos trilhos. Cabe a nós a decisão diante do que fazer e para onde seguir. Talvez estejamos fadados a vagar pelas estações em busca de um regresso. Muito se pensa sobre a morte, mas pouco é dito a respeito do retorno. E se as coisas são encerradas para a volta até um novo início? É isto que veio até os meus braços quando desembarquei com a protagonista desta obra adornada de alusões – à infância e adolescência, segundo a própria autora – nos primeiros passos de sua redescoberta.



Há aqui uma característica já muito peculiar: a garota de cabelos ruivos e bela aparência, mas não tão maior que uma criança, apesar de grande maturidade, não possui nome. Sim, ela irá adquiri-lo, ou melhor: será presenteada com um, para que não passe despercebida diante de tantas novidades que começam a levá-la por novos caminhos. Talvez não tão novos, mas sim revisitados. Acordando em um trem, “sem lenço e sem documento”, a jovem vê-se presente em lugares que lhe trazem fragmentos, não memórias, e dentro de si convive com esta sensação de que já esteve ali, de que é alguém vivo e pulsante, ainda que lhe digam que algo não está certo em sua totalidade.







Durante o livro todo e as descobertas da personagem, somos embalados por dezenas de canções deixadas como pistas do que acontecerá nas próximas linhas: há trechos de músicas para todos os gostos. Elas também se intercalam com a mudança de pontos de vista – na maior parte da história, a leitura é feita em primeira pessoa, através dos olhos da garota sem nome. Em outra via, o enredo é narrado também em um rico envolvimento em terceira pessoa a partir do olhar de Franklin, a principal relação que a protagonista cria ao longo da obra, seu melhor amigo, seu porto seguro. Nesta montanha-russa à fumaça de fortes emoções e desenvolvimento notável dos personagens, conseguimos criar empatia por todos; sejam os secundários que surgem na escola frequentada pela garota, ou os principais, aqui podemos nos irritar com as teimosias de cada um, tal como aprendemos a amar cada qualidade apresentada.





uma potência nas linhas apresentadas e filosofias abordadas de forma íntima e despretensiosa que encanta a aura da história. Como estamos juntos à nossa protagonista que (re)descobre o mundo, aprendemos com ela o (re)significado as palavras, das virtudes, das malícias. É, de certo modo, um crescimento presenciado de perto. Começamos saídos do trem, do início, caímos, engatinhamos, aprendemos a andar. A menina passa por todas essas fases e quedas, claramente, até retornar ao ponto de começo com uma nova perspectiva diante dela mesma. Ainda que em determinados pontos o ritmo das aventuras diminua e caia nas entranhas da rotina – algo que todo jovem, querendo ou não, acaba abraçando como uma zona de conforto – de repente somos arrebatados por um final espetacular: durante a história, pequenas pistas quase imperceptíveis são deixadas a respeito de peças que precisam ser encaixadas, parafusos que você, como leitor, deve encontrar para a máquina funcionar por completo. E quando conseguimos isso… Ah, esse gosto tem que ficar para a leitura. A ausência de memórias, a necessidade de volta, o autoconhecimento – Nostalgia ganha todo o seu significado nas últimas páginas da obra.





Uma leitura intensa e indicada. Você não vai conseguir ler sem um bloco de notas ao lado, ou sem selecionar as palavras, caso tenha a obra em e-book. As passagens que deixei por aqui são um gostinho leve da minha lista enorme de marcações. Os assuntos abordados e analogias espalhadas pelo livro me marcaram muito. Ter Nostalgia em mãos lhe fará rir, se emocionar, e acima de tudo, descobrir um pouco mais sobre si mesmo. Há ação, plot twists e um ambiente que é colorido aos poucos durante o virar de páginas. A história te prende e os personagens te deixam curioso para o próximo ato. E eu, ao finalizar, fiquei chocado e ainda mais ansioso para a continuação!




Nostalgia é o primeiro livro da Série Engrenagens e está à venda em uma edição linda pela EditoraArwen – e em e-book por um preço muito camarada na Amazon (São quase 500 páginas por R$1,99!). Certamente um dos melhores nacionais que li e uma das melhores leituras feitas neste primeiro semestre. Confiram o booktrailer e venham sentir esse mundo alaranjado e nebuloso com a gente!

"O que você faria se acordasse em um trem em movimento, completamente sem memória e sem documentos?

Esse é o dilema vivido pela personagem principal de Nostalgia. “Seguindo suas pernas”, acaba conhecendo Frank, um rapaz que tentará protegê-la a todo custo das terríveis verdades da vida que ela aparentemente é incapaz de compreender. Com ele, a garota descobre o mundo em suas alegrias e tristezas, mas sua teimosia infantil pode causar mais problemas para eles do que poderiam imaginar.

Por meio desta história, a autora mostra, através de metáforas, o que a falta de alicerce na infância pode fazer. Venha se aventurar no primeiro livro desta série de ficção voltada para o clockpunk."



Logo minha edição física vai chegar e vou preparar fotos bem lindas no meu instagram (@delson_neto)!


Espero que tenham gostado e até a próxima!
Beijos!

4 comentários:

  1. Adorei sua apreciação deste livro, Delson.
    Nostalgia me pareceu ser mesmo uma dica excelente de leitura! :)

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  2. Delson do Céu!!!!! Que resenha magnífica! Chorei <3 Amei a forma como você compreendeu as entrelinhas da história, estou surpreendida! E os quotes me mataram aos pouquinhos!
    (tô usando muita exclamação hahsahshahs)
    Vou guardar essa resenha no coração pelo resto da vida!

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