quarta-feira, 17 de maio de 2017

Resenha de Virando Amor, por J.M (25/150)


Preto no Branco: uma forma imatura e superficial de julgar as coisas


Resenha de Virando Amor, por J.M.

                Em geral, o trabalho de um crítico é fácil. A gente pega algo, no meu caso, um livro – fruto do tempo, esforço, suor e lágrimas de alguém – lê e debanda um enorme discurso cheio de citações a escritores gourmet e cagação de regras. A qualidade do seu serviço como crítico vai ser medida pelo tanto que você floreia sua opinião com palavras difíceis (ou melhor, vamos florear isso aqui? Rebuscadas) e pelo quão difícil você é de agradar. Como diria Juan Onetti, “Sempre disse que os críticos são como a morte; às vezes demoram, mas chegam sempre”. Viu? Já fiz meu discurso soar prepotente e entendedor, por mais que nem eu nem você façamos a menor ideia de quem é Juan Onetti. Deve ser alguém importante, tem nome difícil e eu acabei de ganhar uns pontos no seu conceito ao parecer que sei o que estou dizendo. Como eu disse: em geral, é fácil.
                Dessa vez não foi.
                “Virando Amor” é a história de uma garota que, quando o pai ganhou uma promoção no emprego para outro estado, foi forçada, aos dezesseis anos, a começar a vida de novo numa outra cidade, deixando família, amigos e até namorado para trás. O livro se desenrola nas dificuldades de adaptação da menina na escola nova e nas boas surpresas que isso trouxe para ela. As amizades e relações antigas são postas à prova diante a distância. Algumas passam no teste, outras não. Isso faz com que a personagem principal amadureça e perceba que nem tudo são flores. É perceptível, ao longo da trama, este amadurecimento de Priscila, a protagonista, diante das dificuldades que ela tem que enfrentar e do fato de que nem tudo vai sempre acontecer do modo que ela quer. A transição dela de negação para aceitação do novo é feita de forma gradual e bem desenvolvida. A autora, que escreve bem demais para a idade e para a primeira obra, insere bem a protagonista, apesar de falhar nos coadjuvantes. O texto corre leve, fazendo com que o livro seja uma leitura facilmente terminável em um dia.
                Comecei a ler “Virando Amor” e já detectei, logo no começo, não só o rumo da história, mas também o seu final. Depois que se lê muitos e muitos livros na vida, este é até um exercício interessante. Você olha a capa, a cara do escritor, lê a sinopse e o primeiro capítulo e debanda a deduzir o enredo e o final. Em geral eu acerto (falhei miseravelmente com Decrépitos e por isso admirarei o autor até meu último suspiro). Acertei nesse também. Ao longo da leitura, fiz imensos monólogos sobre os erros de enredo que encontrei, com os clichês, terminando sempre com a perspectiva derrotista dos críticos, que usam frases como “a originalidade morreu”. Então agiu o Yang do meu Yin: uma pessoa real na minha vida. A luz da minha escuridão, a neutralidade do meu radicalismo. “Qual a idade dessa moça que escreveu esse livro? Ela parece jovem. Claro que tu não gostou. Você não faz parte do público alvo.”
                Os monólogos? Foram ao chão. O feitiço voltou contra o feiticeiro e a autocrítica iniciou imediatamente. Quantos livros eu já li na vida e disse que eram ruins simplesmente porque eu não me atentei ao fato de que não pertenço ao público alvo? Um crítico deve oferecer sua opinião, claro, mas uma resenha de verdade deve conter neutralidade. Dê José de Alencar para uma criança que ela vai dizer que é péssimo. É verdade? Pra ela, sim, mas a culpa é sua. Quem dá Alencar para uma criança? (As escolas, mas isso não vem ao caso).
                Eu gostei do livro? Não. Há doze anos, no auge da minha adolescência, eu teria gostado? Com certeza! Hoje eu vejo falhas de enredo, vejo falta de interação de personagens e mais um monte de coisas que, como leitora assídua, escritora e estudante de literatura, eu deveria ver mesmo, mas uma adolescente? Vai adorar. O livro contém uma saga de adaptação e empoderamento da personagem principal, amizades, festas, romances e uns excelentes conselhos amorosos pra quem está começando agora e não tem noção dos limites saudáveis num relacionamento. Se você conhece alguém com quinze anos ou menos que esteja começando a namorar, ou enfrentando adaptação de mudança de endereço ou escola, a leitura desse livro vai fazer muito bem.
                Termino minha resenha, mais pessoal do que literária, com uma reflexão: quantas vezes já emitimos opiniões injustas por estarmos julgando realidades que não nos pertenciam? E você? Leva todos esses pontos em consideração antes de ler um livro novo ou continua se frustrando que nem eu, teimando contra as evidências?
                À autora, um conselho: não desista. Você vai ouvir muita gente falando mal da sua obra. Vai ver já ouviu. Vai ouvir muita gente falando bem também. Escute. Tenha paciência. Todos aqueles que disserem “não gostei”, “é péssimo” sem fundamentos, ignore. Assim como os “eu adorei” e os “é ótimo”. Não lhe são úteis para nada como escritora. Deixe fluir. Tire do rio de palavras aquelas que vão lhe engrandecer: opiniões com fundamento, sejam estas negativas ou positivas. Estude literatura, tente de novo. Escreva mais, você tem potencial pra caramba e um grande futuro pela frente. Apesar do que a maioria dos leitores acha, a literatura não é feita de poetas mortos, ou então ela mesma já estaria morta.

                Au revoir e até a próxima.


5 comentários:

  1. Ola
    Já li várias resenhas positivas sobre esse livro e tenho muita vontade de poder conferir também. Gostei de sua resenha justamente por toda a sinceridade apresentada, e compreendo bem seus pontos de vista. De fato, quando a gente lê vários livros, é normal que acerte o rumo das cenas. Gostei bastante de seu conselho para a autora!
    Beijos, F

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  2. Olá!
    Uma das resenhas mais honestas que já li!
    As vezes tudo que o autor precisa é de sinceridade .que alguém fale com eles os pontos positivos e negativos de uam forma que ele não entenda como ofensa!
    Porw isto pode gerar frutos maravilhosos no futuro!
    Tinha lido muitas críticas positivas sobre este livro a tua foi a primeira negativa e a que achei mais sincera .por causa de tua crítica farei a leitura .amo tirar minhas próprias conclusões...e volto para contar o q achei rsrs

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  3. Olá!
    Estou completamente envolvida pela sua resenha! Vontade de ler e reler novamente! Parabéns!!
    Adorei o fato de você ter explorado sobre o público alvo, algo que nunca tinha pensado (incorporando o sentido à palavra), sobre quantas vezes não nos identificamos com o livro, enquanto que outras pessoas simplesmente os amam! Mas estou sempre notando que isso não deve-se apenas a gênero, ou faixa etária, mas também ao momento em que estamos vivendo. Podemos reler um livro mil vezes, e nas mil vezes a leitura nunca será igual. Você não será o mesmo, mesmo que apenas um átomo no seu corpo tenha sido acrescentado. Haverá sempre uma palavra, uma frase, uma mensagem a ser notada a mais e incorporada. Assim como você pode ler uma premissa e detestar e futuramente lê-la novamente e se identificar com a situação e falar: caraca! Por que não li antes!
    Enfim, volto a dizer, amei a sua resenha. No entanto, não me envolvi pela história, mas há quem se envolva!
    Beijos

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  4. Olá!

    Esse não é o tipo de livro que me atrai muito...mas cara! que resenha incrível!

    Adorei que você abordou a questão do público alvo, conheço uma blogueira que sempre fala mal da maioria dos livros que lê, mas eu tenho certeza que é totalmente fora do estilo / idade dela, você abordar esse tipo de assunto me fez abrir os olhos sobre isso, nem sempre um livro é ruim por você não gostar, e não fazer seu estilo !

    Parabéns pelo ótimo post!

    Beijos
    Jess
    www.pintandoasletras.com.br

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  5. Olá!!
    Nunca ouvi falar dessa autora e desse livro e pelo que pude perceber é um daqueles que ou vc ama ou vc odeia.A premissa parece ser bem clichê já li outros livros com enredos bem parecidos mas por ser um livro menos complexo é bom pra sair daquela ressaca literária!
    Mas confesso que fiquei bem curiosa pra saber mais a Priscila e todo o amadurecimento da personagem e de seu processo de adaptação que não é nada fácil!!

    http://livroaoavesso.blogspot.com.br/2017/05/resenha-lua-de-sangue-nora-roberts.html

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