segunda-feira, 10 de abril de 2017

Casos&Acasos, por Suellen Mendes: Sedução nas Águas - Festa no Interior




Olá, galera do STC!
Tudo bem?

Gente, como vocês sabem, o blog esteve parado por motivo de força maior nas últimas semanas; mas agora estamos voltando cheios de gás para lhes oferecer o melhor!

Como vocês já devem estar ter percebido, Casos e Acasos mudou de dia, agora a coluna será publicada às segundas, devido a uma necessidade de agenda. E Parágrafos da minha linda Mai Passos será postada aos sábados.

Hoje darei sequência ao conto Sedução nas Águas.

A ideia era postar dois contos baseados na lenda do boto, mas a história deu o que falar e na próxima semana publicarei um capítulo bônus. Espero que vocês gostem!

Tenham todos uma ótima leitura!





Sedução nas Águas – Festa no Interior
(Por Suellen Mendes)

Dez anos passaram desde que perdi a minha mãe naquela terrível tempestade. À noite, quando fecho os meus olhos para dormir, ainda consigo vê-la, pedindo que eu me afastasse da beira do barco...se ela soubesse o que estava por vir naquela viagem, talvez nunca tivesse aceitado voltar para a casa de minha avó para ajudá-la logo após a morte do Vô Bento.

Mamãe sempre priorizou a minha educação, ela queria que eu tivesse uma carreira, fosse alguém; foi por isso que ao perder o meu pai durante uma de suas saídas para pescar, ela decidiu pegar a mim e às nossas coisas e tentar a vida na cidade, trabalhando como empregada doméstica enquanto eu iniciava a minha educação. Pena seus planos terem mudado tanto...não vivemos mais na cidade, não a tenho comigo, perdi um ano de estudo após a sua morte, mas agora estou dividindo os meus dias entre a árdua tarefa de terminar o terceiro ano do ensino médio em uma escola pública à vinte minutos de barco e as roupas que ajudo minha avó a lavar para colaborar no sustento de nossa família.

- Oi, Michele!

Senti meu coração acelerar ao ver Paulo e seu melhor amigo – Diego – se aproximarem enquanto meus calos ardiam de tanto esfregar a blusa do seu Natanael.

- Bom dia, rapazes! – respondi sem ao menos tentar disfarçar o meu olhar abobado para Diego.

- Está pensando em ir à festa hoje à noite? – ele perguntou, e mesmo eu tendo evitado todas as festas que aconteciam no mês em que minha mãe faleceu, desta vez eu quis ir e poder encontrar com o Diego.

- Sim. Eu irei.

- Mas eu pensei que você não fosse, terça não é o dia em que a sua mãe faz dez anos de falecida.

- É sim, Paulo. Mas acho que a mamãe iria ficar feliz por saber que estou viva e seguindo a minha vida. – minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia, só que fiquei aborrecida por ver o Paulo querendo se intrometer.

- Tá bom, então. Não tá mais aqui quem falou.

- Te vejo mais tarde, Michele.

- Até mais. – fiquei observando enquanto os dois se afastavam... dizer que estava tentada a dar o meu primeiro beijo no Diego era redundante. Eu perdia horas do meu dia imaginando como seria o sabor dos lábios dele nos meus... Ele seria carinhoso? Os lábios dele seriam macios ou firmes?...Fui sentindo meu corpo aquecer com o rumo dos meus pensamentos...

Água! Nada melhor para combater o fogo!

Nem me preocupei em retirar o vestido amarelo, mais judiado pelo tempo do que minha pele pelo sol, simplesmente mergulhei nas águas do rio Amazonas, permitindo-me ser abraçada pela miríade de emoções que começavam a me acalentar. Era como se eu pudesse tê-la por um ínfimo momento, como se minha mãe estivesse comigo novamente. Me entreguei às águas e comecei a boiar de peito pra cima. Com os olhos fechados, fui incapaz de perceber o quanto estava longe da margem.

Foi estranho. Senti-me ser envolvida em um calor reconfortante e flutuar...

Perdi a noção de quanto tempo fiquei assim, até tocar com a ponta dos meus pés à margem do rio. Lentamente me recompus, voltando ao meu estado (não tão normal) de lucidez. Abri e fechei meus olhos algumas vezes a fim de ajusta-los à claridade. Foi então que o vi: o meu boto. Por anos o procurei, olhando incansavelmente para as águas que me rodeavam; porém não o encontrei, ele havia sumido, completa e totalmente, até hoje! E não importa o tempo que se passou desde a primeira vez em que o vi, pois eu sabia que era o mesmo boto, o meu boto...eu o reconheceria em qualquer lugar, a qualquer hora, pois nada – nem ninguém - poderia me causar a reação que ele me causava.

- Por que você sumiu? – perguntei ansiando que ele pudesse me responder, mas em vez disso ele apenas me observava.

Aproximei-me lentamente, rezando para que ele não fugisse de mim. E ele não o fez. Apenas mantinha o seu olhar no meu. Ao tocar a sua pele, senti seu peito vibrar em um som que não reconhecia, mas que por algum motivo sabia significar que ele sentia tanta falta de mim quanto eu sentia dele.

- Nunca pude agradecer por você ter me salvado naquela tempestade. Eu iria morrer se não fosse por você.

Ele se aproximou de mim encostando sua cabeça em minha barriga, dando-me condições de envolvê-lo em meus braços.

- Michele! Michele!

Nosso abraço foi interrompido pelos gritos de minha avó.

- Preciso ir! – falei começando a me afastar, mas ele me seguiu, como se não quisesse que eu fosse. Para ser honesta, eu também não queria ir...

- Micheeeeeele! -... mas precisava.

- Tô indo, vózinha!

Parei meu movimento por um instante e voltei a olhar para aquele enigmático animal. Corri de volta para ele.

- Por favor, volte pra me ver. – pedi ao beijar sua cabeça e correr para fora do rio, juntando as roupas que estavam na bacia e indo até minha avó.

***

- Cê tá uma preciosidade, filha!

- Obrigada, Vó!

- Tu tem certeza que quer ir nessa festa? – tio Zé perguntou após uma breve inspeção pela minha roupa, pois se eu não tivesse minimamente decente não sairia de casa.

Não era de se estranhar a forma como ele surtava ao me ver chegar com as roupas molhadas agarradas ao meu corpo, revelando muito mais do que eu gostaria de mostrar... Titio fazia bem o papel de pai superprotetor.

- Tenho sim, tio! Não se preocupe, a Estrela vai comigo.

- Falando no diabo... – meu primo resmungou ao ver a minha melhor amiga chegando.

- Boa noite, Tonha! Zé! – Estrela cumprimentou minha vó e meu tio ignorando completamente o Paulo. Depois veio me abraçar.

- Tá linda, miga!

- Obrigada! – agradeci apesar de estar um pouco insegura com minha escolha: um vestido com estampa floral na parte de baixo e corpete branco, as sandálias, no entanto, me deixavam mais confiantes por serem brancas de salto alto.

- Educação mandou lembranças! – Paulo se fez ouvir.

Mas Estrela continuou a ignorá-lo. Peguei minha amiga pela mão e, após me despedir de todos, saímos.

- Até quando você irá continuar tratando o Paulo desse jeito? – perguntei já começando a ouvir a música ecoar por entre as árvores.

- Até ele pedir desculpas!

- Pelo quê? Por te dizer que é apaixonado por ti? Por você dar um fora nele e ele beijar a Inês? Ou por que, quando você se arrependeu e voltou atrás, ele bancou o difícil é te rejeitou?

- Você deveria ser minha amiga, sabia disso?

- Acredite, eu sou!

Quando finalmente chegamos, a festa estava em pleno gás. Havia uma quadrilha se apresentando e eu me animei ao ritmo da música. Nunca fui muito dada a dança, mas até que tinha ritmo. Quase uma hora depois finalmente vi o Diego. Ele estava junto com o meu primo e mais duas garotas a quem eu só conhecia de vista.

- Você não vai falar com ele? – Estrela me perguntou, em uma tentativa de me dar apoio.

- Melhor não. Ele está acompanhado. Não vê?

- Impossível não ver aquelas biscates que estão com eles.

Em um olhar solidário, resolvemos nos afastar do animado grupo e continuar aproveitando a festa. Enquanto dançávamos, a música mudou e um lundum começou a tocar.

- Ah certo, essa é a minha deixa! – disse para Estrela que já começava a dançar sensualmente com o Inácio; neto do Sebastião, que é dono na quitanda.

Estava quase fora do centro da festa, quando subitamente parei ao vê-lo se aproximar. O homem alto e misterioso estava todo vestido de branco, com a calça e a camisa de manga longa oferecendo-lhe o pudor e resguardo necessários para me atrair; a cabeça estava coberta por um chapéu que lhe cobria quase completamente a face devido à sombra projetada pela lua, revelando-lhe apenas o sorriso sedutor. As mãos e os pés eram as únicas partes realmente expostas em seu corpo. Ao meu redor, todos pareciam ter parado para vê-lo chegar, mas a verdade é que a única que parou - de fato - fui eu; e em compensação ele veio até mim.

Seu toque ao envolver minha cintura me fez estremecer e eu me permiti ser guiada por ele. Juntos nossos corpos encontraram uma cadência perfeita, acompanhando cada batida da música. Sempre achei o lundum uma música sensual demais para mim, nunca pensei que pudesse me perder nesse ritmo em frente a tantas pessoas, mas estava acontecendo! Senti a forma como a perna daquele homem se encaixava por entre as minhas enquanto nossos quadris se complementavam em movimentos combinados. Em meio ao êxtase sensual proporcionado por essa dança, abri meus olhos e finalmente reconheci aquele olhar.

- É você?! O meu boto?

O sorriso dele se prolongou por toda a face.

- Então não é apenas uma lenda besta? – estava em choque.

O homem levou minha mão direita até o seu lábio e calidamente a beijou. Eu entendi o seu gesto como um pedido para que confiasse nele, era um ato de ternura...então, me permiti ser guiada por ele.

Longe dos olhos curiosos, fui guiada até a beira do rio. Com as mãos ao redor de meu rosto, ele me trouxe para junto de si. Meus lábios, como se já soubessem o que fazer, instintivamente se afastaram permitindo-lhe o acesso. Bem diferente do que imaginei para o meu primeiro beijo, eu não o estava tendo com um garoto por quem achava estar apaixonada, mas sim com um ser que desde minha infância havia se tornado parte de mim.

Com excessivo cuidado, ele me guiou para dentro do rio. Perdida em meio às intensas sensações de que desfrutava, fui subjugada por ele. Permiti-lhe o acesso a partes nunca antes tocadas por nenhum outro homem, e nem parei para pensar se era certo ou errado. Minha mente e meu coração estavam tomados por aquele ser magnífico que me salvou a vida – literalmente.

Quando finalmente o torpor deixou meu corpo, após uma onda avassaladora de intenso prazer. Um clarão iluminou a água ao meu redor, evidenciando o rastro de sangue pela perda de minha inocência; subsequente a ele,o homem foi substituído pelo boto, que se aproximou de mim em busca de um novo contato. Minha pele, ao tocar a sua, reconheceu as similaridades e as diferenças entre o homem e o animal.

- Michele? Você está aí?

A voz de Paulo rasgou as árvores, fazendo-me interromper o momento. Porém antes de me afastar, precisei perguntar:

- E agora, depois que a lenda virou realidade, voltarei a te ver? – meu boto acenou que sim. - Esperarei um filho seu? – novamente o mesmo gesto.

O boto começou a se afastar, deixando-me para trás; medo e a incerteza me abateram, mas decidi encarar o que estava por vir. Não haveria mais volta. Eu fui seduzida e agora teria um filho do boto. O que esta criança iria se tornar somente o tempo poderia me dizer.

- Prima, você está bem? – A voz de Paulo estava assombrada, olhando de cima a baixo para o meu corpo ensopado.

- Foi o boto! Ele fez isso com ela! – A voz de Diogo despertou uma ira profunda em mim e passei por ele esbarrando em seu braço.

- Isso não lhe diz respeito.

Deixando os dois e minha amiga assustada para trás, caminhei até a casa de minha avó, pronta a encarar o meu destino.

(Continua...)

***

E aí, amores? Gostaram do texto?
Se sim, por favor deixem o seu comentário, ok!? Adoro saber a opinião de vocês!

Beijinhos e até a próxima semana!

Suellen Mendes


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