sexta-feira, 24 de março de 2017

Tips & Tricks, por Delson Neto - A Memória de um Livro




Hey, galerinha! Tudo bem com vocês?

Nesta sexta pensei e pensei sobre o que falar aqui. Sempre surgem muitos temas, mas uma ida ao sebo esta semana me trouxe um breve devaneio que gostaria de compartilhar na TIPS&TRICKS desta vez – escapando um pouquinho do nosso ritmo que intercala reflexões, criatividade e dicas.

Contudo, creio que possa ser uma reflexão prazerosa também acerca do livro. Sim, do objeto livro. Do livro como recordação, e da memória que deixamos nele. Espero que gostem!




"Às vezes te vejo correndo de um lado para o outro da sala de estar, obcecado com suas obrigações, em busca de criar os encaixes perfeitos na sua rotina. Finjo estar quietinho no meu canto enquanto você se desespera para cumprir todas as metas daquele dia, e por muitas vezes guardo os seus segredos e não revelo as suas frustrações. Você esqueceu de mim, mas está tudo bem, porque eu não me esqueci da sua presença.


Confesso que gostaria de sentir sua pele aquecendo as bordas das minhas páginas, amareladas que estão, e o cheiro de achocolatado que costumávamos compartilhar nas manhãs frias. Agora seu perfume é agridoce, suas mãos frias e solitárias. Ah! Como era bom explorar mundos sempre em boa companhia, por que e como nos tornamos indivíduos tão presos a nossas caixinhas, o que nos fez deixar de ser alicerces?




Há marcas em mim que provam que você já esteve aqui. Nos dias de chuva, sem querer a água respingava nos inícios dos capítulos, já que eu era seu companheiro inseparável até nos trajetos de ônibus pela cidade. Quando você se alimentava, eu também saciava minha fome. Olhe quantos grãos de bolacha se encontram na brochura. Sem falar nas datas, dedicatórias, letras cursivas assinadas em minhas primeiras páginas, comprovando a quem eu pertencia. A quem eu sempre pertencerei.


Tem dias em que o vejo chegando animado, cheio de coisas para contar e mostrar. Fico enciumado com aquelas capas brilhosas e folhas com perfume de novidade, então engulo essa angústia e me volto aos colegas que, assim como eu, anseiam pelo dia em que você irá nos tirar de novo desse casulo frio. Esses dias o sentimos percorrendo nossos nichos, e com uma facilidade incrível, dois de nós foram levados, sabe-se lá para onde, e nunca mais voltaram. Será que meu destino também será este caminho sem volta? Não sei se gosto de pensar sobre a possibilidade de morar em outro lar, de contar minha história, recomeçá-la pela décima vez, nas mãos de um novo leitor.


O estranho da saudade é querer o que já se foi e esquecer-se por completo que ainda há muito vir.



Quem sabe eu devesse desejar que você me tirasse daqui. Qualquer lugar seria melhor do que fitar o horizonte de janelas sem fim, uma vez que olhar para seus olhos de novo tenha se tornado uma tarefa tão impossível. Gostaria de ultrapassar essa barreira de lembranças e dizer adeus, mas como me despedir se estou fechado entre os volumes que dão sequência a minha história? Como dar-lhe um beijo de “até logo” se me restam apenas palavras prensadas entre páginas, travessões escondidos na quietude de minhas linhas?"


Está ficando tarde. Mais uma semana se passa e você aí, neste computador, enquanto eu grito meus delírios de esperança. É fácil ser leitor: ao terminar a história, basta fechá-la e partir para a próxima, ou sequer partir e focar em narrativas mais interessantes da vida alheia. Difícil é ser livro. Nascer um livro é viver aventuras e logo depois guardá-las para si mesmo, até que alguém se aproxime de volta, com vontade de tê-lo entre os braços. E até que este dia chegue, nos resta esperar. Não temos como partir. Ser livro é permanecer, ser leitor é viajar. E eu permaneci."
 
Texto: Delson Neto

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Até a próxima! o/

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2 comentários:

  1. Todo leitor se identifica com seu texto, pq é um sentimento que só quem ama ler sabe definir.
    Realmente difícil é ser livro, tadinho rs.
    Parabéns pelo texto, expressivo e verdadeiro. Simplesmente amei. :)
    Obrigada pela visita no Blog As Meninas Que Lêem Livros.
    Bjs.

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  2. Esse texto mexeu muito comigo, como uma metáfora da minha vida. Há pessoas que conheço que nasceram para ser leitores, mais livres, arrojados, capazes de escolhas e trocas mais fáceis. Há outros que conheço que também nasceram para leitores, mas a vida os transformou em livros, mais reservados, com sentimentos e histórias ocultas, que só se mostram para quem por eles demonstra interesse verdadeiro.

    Não se trata aqui no que comento se acho que o leitor é melhor que o livro ou vice e versa. Há bons e maus leitores e há bons e maus livros...

    Adorei o artigo, Delson, me deu vontade de filosofar. :)


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