domingo, 19 de março de 2017

Prosa no Divã por Leandro Salgentelli: Minha sexualidade não lhe diz respeito


Outro dia assisti a um relato de um garoto, pelo YouTube, em que falava sobre quando assumiu ser homossexual. Ele é um Youturber famoso, contou que teve que sair de casa porque o pai não aceitava, contou que sua mãe saiu junto porque não ia abandoná-lo. Chorando, contou também que depois quatro anos vou pra casa, acreditando que o pai tinha superado o fato de ser gay, mas foi surpreendido, pois seu pai voltou a ofendê-lo com discursos tão corriqueiros “vai procurar seus machos”, “seus putos não estão te esperando?”, enfim, se culpou por fazer seus pais sofrerem. Nada daquilo me comoveu. 

O Brasil é um país machista, como se sabe. Há pais que expulsam filhos de casa porque descobrem o que no fundo já intuíam. Deve ser difícil para alguns pais descobrirem, por conta da cultura que eles vieram, mas deve ser mais difícil para o garoto ou garota falar sobre sua sexualidade. Enfim, entendo os dois lados.

Sei que é um assunto delicadíssimo, mas o que não entendo é essa necessidade de se auto-afirmar, o famoso “sair do armário”, o famoso “não escolhi ser gay”. Dramático demais. Não acredito que alguém nasça gay, como também não acredito que alguém nasça homem ou mulher. Acredito que as pessoas nasçam com um pênis ou com uma vagina (e não faz diferença alguma ter um ou outro antes da puberdade). O que nos define — mesmo — são os nossos medos, as nossas angústias, as nossas vontades, os nossos desejos, o resto é especulação. 




Até hoje minha família especula sobre minha vida sexual. Um garoto sensível e que escreve poesia? Hum... muito estanho. Ou quando aparece alguém repentinamente e pergunta se estou namorando. Deviam reformular a pergunta: você está namorando garotos ou garotas?

Por trás das perguntas aparentemente ingênuas há intenções, isso para mim sempre foi muito claro. Embora não ser da conta de ninguém, optei nem pelo sim nem pelo não. Deixo a especulação dos outros dizer por mim. A verdade é: eu nunca me assumi porque não tem nada que tenha que ser assumido. Sou o que sou. Eu me relaciono com pessoas. E isso para mim é mais importante que rótulos.

Quanto a você, garoto do YouTube, em vez de lamentar pela falta de compreensão do seu pai, por que não segue em frente? Por que insistir atenção de alguém que o despreza? Um dia ele vai se arrepender, tenha certeza, mas enquanto isso não acontece, vai viver, vai ficar ao lado de quem te quer bem, de quem te faz sorrir. Você dá conta de si mesmo. Tem 25 anos nas costas, é independente, tem seu emprego, tem amigos, pare de fazer a linha “não escolhi ser assim”. Acorda. Salve-se dos seus traumas. Nem que para se salvar precise sair de casa, outra vez.

Leandro Salgentelli 
leandro.salgentelli@outlook.com.br

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