domingo, 25 de dezembro de 2016

Prosa No Divã por Leandro Salgentelli: Se Eu Pudesse Voltar no Tempo

Imagem relacionada

Eu tinha acabado de acordar e em seguida fui tomar café, sem muito o que fazer, fui remexer na minha vida. Digo, fui arrumar algumas papeladas que estavam meio que jogada na última gaveta aqui de casa. No meio daquele mundaréu de papel, contratos e folhas de pagamentos, encontrei uma carta com um roteiro a qual tinha que fazer em 2012. Tinha até me esquecido dessa carta que um dia escrevi para mim mesmo. Eu devia ter uns 16 anos quando escrevi naquele papel já amarrotado. Lá eu dizia que em 2012 tinha que tirar carta de motorista, tinha que arrumar um emprego descente, tinha que comprar um carro, ah, e encontrar o amor da minha vida. 


É frustrante demais não conseguir realizar o que se está num checklist. Mas sem muito drama, fechei a gaveta, joguei aquela carta fora e fui me distrair com outras coisas. À noite, deitado sobre a cama, fiquei pensando no que fiz da minha vida até aqui — sendo “até aqui”, aos meus 22 anos. Porque acredito que todo final de ano é uma oportunidade para reavaliar as nossas escolhas, remexer nas dúvidas, repensar em tudo que fizemos. 


Mas a cada pensamento chego à conclusão que preciso me dar alta. Parar de pensar, parar de questionar e me abrir para a vida que está por vir. Sou bem realista e sei que o que está por vir não será tão diferente do que está nos acontecendo agora, vamos continuar se repetindo, continuaremos a resmungar pelas mesmas queixas porque a vida por si só é repetitiva demais. Este não é o primeiro Natal, não é a primeira vez que ficamos a questionar o que nos acontece, não é a primeira vez que brindamos sabe se lá o quê. 
Mas não era disso que estava falando, lembra?, estava falando em me dar alta e parar de arquitetar as coisas e abrir o espírito para se encantar com viagens, árvore de Natal, amigos secretos e presentes — que mania de colocar o ego sempre em primeira instância. 
Ah, se eu pudesse voltar no tempo... Faria como Sérgio Britto ao compor a canção “Epitáfio”, interpretada por Titãs. “Devia ter complicado menos/ Trabalhado menos/ Ter visto o sol se pôr/ Devia ter me importado menos/ Com problemas pequenos/ Ter morrido de amor.” 

Ah, eu devia... eu devia ter colocado naquele checklist para se divertir mais, para pensar menos, para ponderar menos ainda e deixar o amor nascer. Eu devia deixar a paixão falar mais alto, eu devia me arriscar no desconhecido e ver no que poderia acontecer. Eu devia ter chutado o balde e amar incansavelmente aquele amor que parecia impossível. Eu devia ver o pôr do sol nascer... 

Ah, se pudesse voltar no tempo... eu faria tudo diferente, mas fazer diferente comprometeria a pessoa que sou hoje. E gosto da pessoa que sou hoje. Então, que façamos a partir de agora — afinal, o ano ainda não acabou. Feliz Natal. 

Leandro Salgentelli 

17 comentários:

  1. Olá!
    Nossa que texto profundo, você escreve muito bem Leandro, parabéns! Eu não comemoro o natal, mas concordo com algumas coisas suas, deixar viver mais, aproveitamos tão pouco o nosso tempo a nossa vida, nos preocupamos com tantas coisas desnecessárias. Excelente texto!

    Abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Tony, obrigado pelo carinho e pelo comentário inspirador. Temos algo em comum: também não comemoro o Natal efetivamente, mas a reflexão é sempre para dentro, é isso que tento fazer sempre, e tento transmitir isso nos meus texto. Dar valor os instantes, as relações, rir mais do que chorar, ser leve... Enfim, obrigado, de coração e um forte abraço.

      Excluir
  2. Que prosa mais encantadora menina, fiquei querendo mais e mais, sua escrita me deixou fascinante, desejo muito sucesso a você.
    Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mogana, adorei você. Obrigado pelo comentário inspirador. Um beijo bem carinhoso. Sucesso a todos nós, merecemos. (rs) <3

      Excluir
  3. Olá!
    Todo final de ano é assim, né? Fazemos novos planos para o ano que está para chegar, mesmo sabendo que não conseguiremos realizá-los, seja por preguiça, por falta de oportunidades ou qualquer outro motivo. Sempre reclamamos do ano que está terminando, esperando que o próximo seja melhor. E no final, cá estamos nós reclamando (de novo) no final. É até engraçado, de certa forma, mas acho que nunca devemos parar de fazer planos, traçar metas, tentar melhorar e o mais importante: não perder as esperanças.
    Parabéns pelo belo texto.
    Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, obrigado pelo comentário e pelo carinho. Você tem toda razão, no final, a gente sempre termina reclamando. No entanto, sempre faço essa listinha, todos os anos, apontando o que quero para o próximo e os ganhos que já consegue. É uma forma de terapia que encontrei... Tem me ajudado. E muito. E vejo a cada ano como meus objetivos mudam, como o destino sempre coloca algo maior na minha frente, coisa que jamais teria coragem de perceber... Um beijo carinhoso, que não percamos as esperanças... <3

      Excluir
  4. Olá!
    Recentemente pensei nas escolhas que fiz no passado e o que eu faria diferente, mas percebi que não faria nada, sabe? Eu não quero mudar o que fiz, não tenho arrependimentos do que fiz, pois todas as minhas escolhas me trouxeram onde estou.
    Gostei do seu texto e feliz Natal atrasado.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bruna, que lindo ler seu comentário. Exatamente, mudar uma escolha de alguma forma alteraria quem somos hoje. Feliz Natal (mais atrasado ainda) hahaha. Um super beijo. <3

      Excluir
  5. Olá!
    Gosto muito de poder acompanhar essa sua coluna. De fato todo final de ano pensamos a mesma coisa, que iremos mudar no ano seguinte e poucas pessoas conseguem isso. Acredito que não voltaria no tempo para mudar as escolhas que fiz, sou muito feliz hoje em dia e agradeço a todas decepções que passei.
    Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Carolina, fico muito feliz que acompanha a coluna. E adoro o pessoal desse blog porque são pessoas determinadas e sabem o que querem. Gosto disso. E fiquei muito feliz com seu comentário, pois as decepções sempre chegam para nos ensinar algo. Um beijo bem carinhoso. <3

      Excluir
  6. Gente, que texto lindo! *-* Fiquei emocionada, juro.
    Realmente é mais fácil conviver com tudo o que já foi feito, e que te tornou a pessoa que é hoje, do que se lamentar sobre o que fez de errado. Erros só nos fortalecem, e é sempre bom pensar no que melhorar. Também não mudaria nada do que já vivi.
    beijos
    www.apenasumvicio.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. DESSA, SUA LINDA, OBRIGADO, VIU, PELO CARINHO. VOCÊ ESTÁ CERTÍSSIMA, NÃO VALE A PENA LAMENTAR SOBRE O QUE PODERIA MUDAR. SIGAMOS ADIANTE. UM BEIJO BEM CARINHOSO.

      Excluir
  7. MÁ OEE! Já fiz cartas a mim mesmo, tipo capsula do tempo, admito ter perdido todas. Não costumo me impor metas, porque vc pode criar cobras, sapos, um Bolsominion, mas não crie expectativas, pelamor de jesus, muito fácil se frustar depois. Mas tenho algumas aspirações internas e costumo parar para um momento reflexivo todo fim de ano tbm. Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dei uma bela gargalhada agora. Pior que você tem razão todas as metas podem vir cair se não formos conscientes de que não temos controle sobre nada. E pelo amor de jesus volte mais vezes. Um abraço e feliz 2017. rsrs

      Excluir
  8. Olá Leandro!

    Adorei o seu texto! Bastante reflexivo mesmo. Por ter a mesma idade que você, tive um flashback agora: quando era mais nova eu fazia listas como as suas, sempre valorizando bens materiais ou coisas egocêntricas demais...porém a gente cresce e amadurece, para então perceber que essas coisas não são extremamente importante. E assim como você, hoje minha resoluções para 2017 são: amar mais, me conhecer mais, me arriscar mais, viajar mais e com certeza ler muuuuuito mais :)

    Um beijão!

    www.facesemlivros.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, Priscila, me deu vontade agora de te dar um abraço bem forte, daqueles abraços de tirar o fôlego. Exatamente isso. Você me captou: o objetivo, agora, é viver intensamente, correr todos os riscos, com responsabilidade, e ver o que pode acontecer. Mantenho o hábito ainda de escrever num papel, mas agora faço diferente, coloco nele o que não quero, mágoas, defeitos e outras coisas... Um beijão e volte sempre. Adorei você. <3 Seguindo o blog e a página. Beijocas.

      Excluir

Deixe-nos sua opinião sobre esta postagem.