sexta-feira, 6 de abril de 2012

Como os leitores interpretam os textos que leem? - de Aila Sampaio



Escrevo há muitos anos e observo que, assim como na vida as pessoas julgam as atitudes das outras, muitas vezes sem conhecê-las, inspiradas, certamente, em seu próprio modelo, na leitura do texto literário também ocorrem distorções propiciadas pelo mesmo comportamento. Essas minhas reflexões me levaram de volta à ‘Estética da Recepção’, teoria que considera a Literatura enquanto produção, recepção e comunicação, ou seja, uma relação interativa entre autor, obra e leitor.

Claro que não me interessa aqui historiar a teoria literária, mas apenas embasar o meu pensamento sobre a forma como as pessoas recebem o texto que leem. Gostar e não-gostar são reações muito subjetivas. O leitor comum, que não tem pretensões acadêmicas, busca apenas prazer no que lê, quer informação, deleite. Normalmente ele se identifica com textos românticos e existenciais, vê-se em cada palavra ou compreende, por meio dela, o que sentia, mas não sabia (ou conseguia) expressar.


Há, entretanto, uma diversidade de recepções, e isso também nos faz voltar à teoria da Obra Aberta, do Umberto Eco, quando ele diz: “toda obra de arte é aberta porque não comporta apenas uma interpretação”. Pois bem: o que leva o leitor a uma determinada interpretação? Se o texto literário é condicionado pela relação dialógica entre literatura e leitor, certamente, ele interpreta o que lê de acordo com seus próprios referenciais, sua ideologia, sua cosmovisão, seu nível de leitura e, claro, sua circunstância atual. 


O leitor ingênuo não lê com isenção. Cai rápido na armadilha do texto, não compreende as metáforas, faz uma leitura tão horizontal quanto o seu pensamento. Acha que tudo é recado pra ele e que há alguém colocando maldosamente o dedo na sua ferida.


O leitor emotivo se embriaga, se vê em cada palavra. Ele lê com o coração, descobre jardins atrás das frases, luas surgindo pelas frestas das sinestesias e janelas se abrindo em metonímias. Não é preciso saber o nome das figuras, só ultrapassar a camada superficial do texto e mergulhar nas entrelinhas, visitar os subtextos, como se visitam os desvãos da alma.


Há quem leia de arma na mão, exatamente como vive: sempre se defendendo do mundo, perseguido pelos próprios fantasmas. Esses leem com o fígado, com a bílis estourada, digerem os textos como se fossem gorduras, distorcem as mensagens, azedam qualquer doce com a amargura que mastigam todos os dias como o alimento que lhes dá sobrevivência (embora às vezes nem percebam).


Assim, aprendi que há leitores e leitores; que devo escrever e ficar preparada para nem sempre ser compreendida. Não tenho a pretensão de agradar a todos, mas tão-somente de expressar a minha verdade que pode, evidentemente, não ser a de muitas outras pessoas. Se uma só semente germinar, já terá valido a semeadura!

(Ei, falo do leitor comum, sem pretensões críticas e acadêmicas!)

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