quarta-feira, 26 de abril de 2017

Resenha (23/150): Padma, de Kelly Hamiso


Sinopse: Jéssica é uma garota de dezessete anos, estudiosa, bonita e rica, que havia ganhado uma segunda chance. Numa visita à casa de sua avó, em São Paulo, conhece um grupo de amigos e Beto, rapaz rebelde que, entre cigarros, bebedeiras e rock’n'roll, está longe de ser o homem ideal, mas sua indiferença o torna irresistivelmente fascinante. Tinha tudo para ser mais uma história de amor, exceto por um detalhe: os dois não sabiam que essa união os transformaria em peças de um jogo entre membros de uma organização e um homem ambicioso; todos manipulados por Arimã, o anjo corrompido. Para que consigam ficar juntos, Jéssica e Beto precisarão revelar segredos, aprender a perdoar, interpretar sonhos e acreditar que não estão sozinhos. Entre vícios, brigas, uma flor que inspira e seres sobrenaturais, está Padma, em busca da luz.


Um romance cheio de boas reviravoltas e momentos clichês, assim defino Padma, de Kelly Hamiso. Na historia conhecemos Jessica e Beto, duas pessoas de realidades sociais bem diferentes destinados a viver um romance cercado de momentos tensos, felizes e até mesmo confusos.

O amor de Beto e Jessica ultrapassa outras vidas, e precisa passar por muita maldade para que possa se realizar. A história traz anjos e demônios em uma luta constante para destruir ou salvar o amor dos dois. Não será nada fácil conquistar a felicidade plena do casal. Kelly traz ao leitor personagens cheios de dúvidas e conflitos internos, que tornar a história do casal ainda mais singular. Em Padma , a autora nos mostra que sempre estamos cercados por más energias que tentam nos destruir e impedir nossa felicidade. Mas aquela velha frase sempre prevalece: O mal nunca será páreo para o bem.

Na leitura, peguei-me várias vezes incomodado com o modo de ser de Jéssica. No início ela mês me parece ser submissa ao extremo, o que me deixou bem contrariado. Depois de todo o percurso em busca de ser feliz, finalmente a personagem se encontrou e conseguiu amadurecer e tornar-Se uma mulher mais dona de si própria.

A escrita de Kelly consegue prender atenção, por ser leve e bem descrita. A autora consegue descrever cada cenário, personagem e momento sem tornar a leitura cansativa e arrastada. O leitor sempre conseguirá se identificar com alguma situação ou personagem trazido em Padma, pois Kelly consegue deixar um ficção bem próxima a realidade vivida por nós hoje em dia.

Confesso que o final não me agradou como eu esperava, fiquei esperando um pouco mais, e minhas expectativas não conseguiram ser supridas. Na realidade, acredito que a autora possa realizar uma continuação do enredo, pois algumas definições ficaram em aberto.


Padma merece ser lido por mostrar que o amor tem todas as forças e formas necessárias para vencer as dificuldades que apareçam em seu caminho. A diagramação do Livro está impecável, sem erros de revisão e uma capa completamente apaixonante.

Kelly Hamiso conseguiu escrever um romance onde os seus personagens se tornam marcantes e inesquecíveis. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Novas Editoras Parceiras: Alicanto e Grupo Editorial Scortecci


Olá amigos e amigas leitoras, desculpem o sumiço do blog, mas acabei ficando sem computador e iniciou-se a Bienal do Livro do Ceará, que roubou todo meu foco (Em Breve toda a cobertura por aqui). Hoje nesse retorno, venho trazendo duas novas editoras parceiras do nosso blog Alicanto e Grupo Scortecci, vamos conhecer elas? 

Editora Alicanto


Editora Alicanto,  uma nova editora com um antigo objetivo ; Publicar bons livros. 

 

Alicanto é uma ave mítica do deserto do Atacama que se alimenta de ouro. Não poderia ser outro nosso nome, já que o alimento da Editora Alicanto também é um tesouro precioso; a boa literatura.  E assim são nossos livros, tesouros literários que enriquecem a mente e alimentam a alma. 

 


Apesar de novos, chegamos ao mercado com fome dos maiores tesouros que pudermos encontrar ,intrínseco a um antigo ideal: publicar bons livros. Não vemos o livro meramente como um produto, mas como uma peça de arte, uma pequena revolução que pode encantar ,transformar mentes e corações. Sob um modelo de publicação tradicional, investimos em obras que merecem e que valem a pena ser levadas ao público leitor, recebendo  de mente aberta  toda e qualquer forma de originalidade editorial,tesouros literários que enriquecem a mente e alimentam a alma. 



Grupo Editorial Scortecci 


Scortecci é uma editora laureada, com mais de 35 anos no mercado editorial brasileiro. Edita, imprime e comercializa livros em pequenas tiragens desde 1982. Possui gráfica própria com tecnologia Digital, acabamento de qualidade, sofisticado controle de vendas e central de logística. Já recebeu os prêmios: Jabuti, APCA, FBN, ABL e PEN Clube. Em sua história conserva os mesmos objetivos e propósitos desde a sua fundação: publicar livros, organizar e apoiar concursos e prêmios literários, realizar recitais e eventos culturais, editar e coordenar antologias de novos talentos, desenvolver o mercado literário através de cursos, palestras e oficinas, trabalhar pela formação de bibliotecas e fomentar o hábito da leitura. 

 



Em breve volto com resenhas e mais novidades dessas nossas novas duas parceiras.

domingo, 23 de abril de 2017

Prosa no Divã por Leandro Salgentelli: A morte como empoderamento

Imagem: Reprodução/ Internet

Toda vez que estou com alguma dificuldade, com algum problema seja ele na área profissional, pessoal ou até mesmo acadêmica, penso na morte. O fato de sermos o único animal da terra que tem a consciência da finitude, isso já me alegra. Pensar na morte não é fugir dos problemas ou se autoflagelar, na minha concepção, é a ideia de que a morte é um instrumento de pensar e reavaliar o nosso lugar. Será que estou fazendo o que eu quero ou será que estou sendo o que querem que eu seja?

Toquei nesse assunto porque recentemente assisti a um vídeo no YouTube, do canal Projeto Estelar, que tem a finalidade de promover conhecimento feminino, e em um dos vídeos, a entrevistada foi a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes, que é geriatra e especialista em cuidados paliativos. A certa altura do vídeo relata: “A morte pra mim é umas das coisas mais intensas como ferramenta de empoderamento do ser humano. Quando você tem noção do fim da sua vida não tem ninguém que te enrole, não tem nada que te iluda. Por que você vai desperdiçar seu tempo com coisas irrelevantes?”.

Com essa pequena frase poderia encerrar a coluna aqui, me despedindo para finalmente correr atrás do tempo perdido.

Pensar na morte, de uma forma honesta, é dar valor ao tempo. É tentar contornar àquilo que fizeram com você. É descobrir aquilo que te agrade e o que desagrada. Pensar na morte é uma alternativa para empoderar o nosso cotidiano. É o fugir de uma fofoca que não vai levar a lugar algum, é o deixar de se preocupar tanto com os problemas, com as dívidas e tratar de cuidar do acontece no entorno. É o se descobrir e se reinventar.

Tem uma frase tão sussurrada que já perdeu o sentido original, mas pelas minhas buscas, a frase é de Sartre que diz o seguinte: Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.

Só tendo noção da finitude para escrever algo tão intenso e verdadeiro.

Mas me conte, o que você tem feito por você? O seu choro tem sido maior que seu sorriso? A sua alegria de viver se perdeu em que ponto? Seu sofrimento tem sido maior que a concepção de finitude?Desde que nascemos somos moldados a seguir o que a solenidade determina. E todas essas imposições vão, aos poucos, distanciando o contato com o nosso eu intrínseco. Aquele eu, rebelde, que não se importa com o que os outros vão pensar; aquele outro eu, responsável, que adia as vontades em detrimento da condição; aquele eu, criança, que disfarça para se enquadrar; aquele eu, egocêntrico, que representa o estereótipo falso da conduta. Aquele “eu” que adia tanto a si mesmo que não saberá responder a crucial pergunta quando a hora chegar: por que eu não fui eu?


***


O que mais se discutiu na mídia esta semana foi o tal jogo “Baleia Azul”, que tem como finalidade vários desafios sendo o último acabar com a própria vida. A origem do jogo que incentiva o suicídio não é conhecida, mas os primeiros relatos surgiram na Rússia. Em fevereiro, duas adolescentes se jogaram do alto de um prédio de 14 andares em Irkutsk, na região da Sibéria. No Brasil, há notícias de casos de suicídio relacionados ao jogo em diversos Estados.

Esse texto é uma tentativa de estimular os jovens a pensarem, sim, na morte; porém, de uma forma honesta, como forma de dar sentido à vida e não se levarem tão a sério. A vida é curta demais para encerrar com um discurso vago e deixar uma pergunta para posterioridade. Vamos torcer para que encontrem a origem do jogo.


Fonte: O Globo.
Leandro Salgentelli 
leandro.salgentelli@outlook.com.br

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tips & Tricks por Delson Neto - Zumbis e Cultura Pop


Hey, galerinha! Tudo bem com vocês?


Tivemos um feriadinho na semana passada e nesta também – mas hoje tem coluna aqui :D
Sejam bem-vindos a mais uma TIPS&TRICKS. O assunto desta sexta é: o fascínio pelos mortos-vivos na cultura pop, pegando como exemplo o mangá Fort of Apocalypse, lançado pela Editora JBC e concedido em parceria para o blog ;)



Vocês certamente já repararam, assim como eu, que em diversas áreas da arte temos exemplos claros de enredos que envolvem zumbis, mortos-vivos e seres que estão neste limiar entre a vida e o que há após dela. Na literatura, não escapamos muito: Game of Thrones, Trono de Vidro, O Orfanato da Sra. Peregrine são só alguns exemplos contemporâneos de histórias, em essência do gênero fantástico, que incorporam estes seres que tantam aguçam a curiosidade dos leitores mais devotos. White Walkers (Caminhantes Brancos), Skinwalkers e afins são todos criaturas que já deixaram o plano humano há tempos!



Será que temos tamanha aversão a morte, ou melhor, de deixar a vida a ponto de cogitarmos um fim do mundo repleto de seres… Mortos? É estranho, não é, se paramos para pensar nesse culto aos zumbis. É um universo cheio de sangue, gore, vírus e possibilidades horríveis (algumas não tão remotas assim); nada de otimismo aqui, somente catástrofes. É como se tivessemos, lá no fundo, mesmo aqueles não tão chegados a histórias que seguem essa linha, os sentidos aguçados quando estamos diante de situações temíveis. Ao invés de corrermos para longe de medo, relutamos – damos um passo para trás, desejando encarar a beleza que se esconde naquilo que tememos, depois corremos.



Salve-se quem puder! As histórias de zumbis também estão recheadas de seus famigerados clichês, o que, convenhamos, não é de todo ruim. Quem não gosta de pegar uma obra em mãos, seja literária, ou em série, exatamente do jeitinho que gosta? Mas é legal quando achamos coisas que escapam do formato, ainda que abordando o mesmo assunto. Por exemplo, recentemente a Netflix nos trouxe a série Santa Clarita Diet (que eu particularmente acho de um tom de humor excelente, haha) que ainda contendo traços das tradições em torno dos zumbis, tem um cenário de cotidiano genial.








Em Fort of Apocalypse, lançado em 2014 no Japão e que agora dá as caras aqui no Brasil através da Editora JBC, temos aí uma leve mudança de cenário: os zumbis dominaram o japão, de maneira enigmática, e talvez o único lugar com sobreviventes seja um reformatório de menores infratores extremamente violentos – bem, nem todos, Yoshiaki Maeda, o suposto protagonista, jura ser total inocente de seus “crimes”. Bem, por que suposto? Pois temos aqui um mangá que traz personagens muito cinzas, todos agem por si, não há herói, ou anti-herói, a construção deles nesse mundo se revela aos poucos ao longo das páginas. Com direito a muito sangue, claro.


A tensão é total. O mundo foi tomado por uma epidemia zumbi fulminante. O fim se aproxima e não há para onde fugir. Trancafiados em um reformatório para delinquentes, um grupo de jovens irá descobrir que a prisão pode ser o único lugar seguro na face da Terra em Fort of Apocalypse (Apocalypse no Toride, no original), o oitavo mangá anunciado em 2016 pela JBC.”



Neste primeiro volume somos apresentados aos personagens centrais, que são estes jovens presos em um determinado setor do Instituto Shouran quando de repente um policial surge no pátio com um visitante nada convencional, que acaba trazendo caos a todo o reformatório ao comer vivo um dos guardas. Como estão desprovidos de meios de comunicação e afins, tudo que chega até os garotos é através do denso cenário de destruição da cidade, possível de ser visto do alto do prédio da instituição.



Temos aqui um clima bem “Battle Royale”, quem já leu o livro deve saber bem: a contagem de vivos e mortos durante a mudança de capítulos, o que eu acho bem interessante para a história, uma vez que a mudança de eventos aqui ocorre rapidamente (veja, é um mangá curtinho, dá para ler em uma tarde) e isso agrega uma dinâmica ao leitor, para que tenhamos uma perspectiva do caos instaurado no Japão após o misterioso aparecimento dos zumbis.


Falando um pouco da qualidade estética: a capa é lindíssima! O acabamento não é o mesmo de luxo que vemos em FullMetal Alchemist, por exemplo, por se tratar de uma edição convencional e de custo mais acessível, mas isso não deslegitima EM NADA a qualidade de impressão e capa. Na parte interna temos essa linda arte colorida, as folhas impressas em papel simples com cheirinho de mangá do jeitinho que a gente gosta <3



O mangá tem como roteirista Yu Kuraishi e a arte por Kazu Inabe. O roteiro ainda tem ali suas dificuldades, justamente por ser rápido e ter uma confusão danada com o nome dos personagens (sério, eu tive que marcar a página que tem todos eles, pois me embananei rapidinho com os nomes semelhantes), mas a história é muito fluida. Senti falta de protagonismo feminino, espero que nos próximos volumes isso mude um pouco, veremos! Além disso, os traços mantém uma simplicidade atrativa, nada preguiçosa, e que traz um destaque ótimo que reparei – os olhos dos personagens, o terror presente neles, ou a fome nos queridos zumbis, são sensacionais! Mudam totalmente a abordagem violenta do enredo, tirando o foco do leitor da violência para o que se passa no desespero de determinado personagem. Se você gosta de ação e mistérios (e cérebros) – Fort of Apocalypse é uma ótima pedida!



Espero que tenham gostado do post e que o final de semana seja ótimo!

Fort of Apocalypse já está no Voume #2 Ainda dá tempo de colecionar! Disponível nas bancas e no site da Editora JBC!

Postei também algumas fotos no insta ;D
Segue lá: @delson_neto

Beijos e até a próxima!






domingo, 16 de abril de 2017

Prosa no Divã por Leandro Salgentelli: O vento que sopra

Imagem: Reprodução/ Internet 

Qual é a dor mais forte que você já sentiu? Não me refiro às dores de dente ou de cabeça, mas as dores internas. Imagine uma perda, qualquer perda, pode ser de um amor que se findou por incomplacência, pode ser a perda de um ente querido ou de um amor não correspondido. Descontentamento não é permanência, embora muitas vezes pareça não ter fim, mas é justamente aquele sentimento de incompreensão que vai nos motivar a seguir em frente em busca de novas possibilidades para viver uma vida como se gosta.

A dor de perder alguém muito querido assemelha-se a uma pequena morte — mas é uma morte, ainda que ínfima. A dor de uma separação é um sentimento que se dissolve com a chegada de outros prazeres — ou de um novo amor. Já a dor de um amor não correspondido é digerida como falta, ausência de qualidades, de beleza, o famoso “o que falta em mim?”.

Cada um de nós digere a alegria e a tristeza de uma forma muito particular, mesmo que tenha um quê de mais banal nessas duas palavrinhas. Pouco se considera que a alegria e a tristeza estejam ligadas com todo o resto. Uma faz sincronia com a outra. Por mais que rejeitamos que alegria é a renovação de uma tristeza e que, portanto, estão interligados com outros sentimentos como raiva, rancor, mágoa, bondade, delicadeza, amor.

Assim formamos a nossa cultura, os nossos valores, as nossas crenças — que também são moldadas conforme a percepção daquilo que é adepto ou não. Exemplo disso são as relações que temos com os nossos pais — temos mais deles do que se possa imaginar. O certo e o errado que adquirimos, e que passamos adiante, é de acordo com os sentimentos e ensinamentos que tivemos desde a infância.

A tristeza está ligada a alegria, alegria está ligada ao amor e por sua vez o amor está ligado à esperança. Tudo numa redoma. São sentimentos tão abstratos que parecem loucura falar sobre eles. Obviamente que não se pode tocar nesses sentimentos mais puro e verdadeiro construído à sua maneira, mas eles são como o vento que sopra. Você sente em seu rosto, você sente sua energia, você sente seu gelado e seu frescor. Assim como o vento que nos rege está ligado à alegria e a tristeza, também está ligado à vida, que por sua vez faz conexão conosco.

Ok; dei uma bela viajada, obrigado por me acompanhar até aqui, mas essa reflexão foi provocada pelo filme “Divertida Mente”, dirigido por Pete Docter e Ronaldo Del Carmen. Mesmo não sendo lançamento, nos faz voltar a primitividade, quando passamos a descobrir que só os sentimentos mais puros e verdadeiros é que tem a capacidade de nos unir. 

Leandro Salgentelli 
leandro.salgentelli@outlook.com.br

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Casos&Acasos, por Suellen Mendes: Sedução nas Águas - Festa no Interior




Olá, galera do STC!
Tudo bem?

Gente, como vocês sabem, o blog esteve parado por motivo de força maior nas últimas semanas; mas agora estamos voltando cheios de gás para lhes oferecer o melhor!

Como vocês já devem estar ter percebido, Casos e Acasos mudou de dia, agora a coluna será publicada às segundas, devido a uma necessidade de agenda. E Parágrafos da minha linda Mai Passos será postada aos sábados.

Hoje darei sequência ao conto Sedução nas Águas.

A ideia era postar dois contos baseados na lenda do boto, mas a história deu o que falar e na próxima semana publicarei um capítulo bônus. Espero que vocês gostem!

Tenham todos uma ótima leitura!





Sedução nas Águas – Festa no Interior
(Por Suellen Mendes)

Dez anos passaram desde que perdi a minha mãe naquela terrível tempestade. À noite, quando fecho os meus olhos para dormir, ainda consigo vê-la, pedindo que eu me afastasse da beira do barco...se ela soubesse o que estava por vir naquela viagem, talvez nunca tivesse aceitado voltar para a casa de minha avó para ajudá-la logo após a morte do Vô Bento.

Mamãe sempre priorizou a minha educação, ela queria que eu tivesse uma carreira, fosse alguém; foi por isso que ao perder o meu pai durante uma de suas saídas para pescar, ela decidiu pegar a mim e às nossas coisas e tentar a vida na cidade, trabalhando como empregada doméstica enquanto eu iniciava a minha educação. Pena seus planos terem mudado tanto...não vivemos mais na cidade, não a tenho comigo, perdi um ano de estudo após a sua morte, mas agora estou dividindo os meus dias entre a árdua tarefa de terminar o terceiro ano do ensino médio em uma escola pública à vinte minutos de barco e as roupas que ajudo minha avó a lavar para colaborar no sustento de nossa família.

- Oi, Michele!

Senti meu coração acelerar ao ver Paulo e seu melhor amigo – Diego – se aproximarem enquanto meus calos ardiam de tanto esfregar a blusa do seu Natanael.

- Bom dia, rapazes! – respondi sem ao menos tentar disfarçar o meu olhar abobado para Diego.

- Está pensando em ir à festa hoje à noite? – ele perguntou, e mesmo eu tendo evitado todas as festas que aconteciam no mês em que minha mãe faleceu, desta vez eu quis ir e poder encontrar com o Diego.

- Sim. Eu irei.

- Mas eu pensei que você não fosse, terça não é o dia em que a sua mãe faz dez anos de falecida.

- É sim, Paulo. Mas acho que a mamãe iria ficar feliz por saber que estou viva e seguindo a minha vida. – minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia, só que fiquei aborrecida por ver o Paulo querendo se intrometer.

- Tá bom, então. Não tá mais aqui quem falou.

- Te vejo mais tarde, Michele.

- Até mais. – fiquei observando enquanto os dois se afastavam... dizer que estava tentada a dar o meu primeiro beijo no Diego era redundante. Eu perdia horas do meu dia imaginando como seria o sabor dos lábios dele nos meus... Ele seria carinhoso? Os lábios dele seriam macios ou firmes?...Fui sentindo meu corpo aquecer com o rumo dos meus pensamentos...

Água! Nada melhor para combater o fogo!

Nem me preocupei em retirar o vestido amarelo, mais judiado pelo tempo do que minha pele pelo sol, simplesmente mergulhei nas águas do rio Amazonas, permitindo-me ser abraçada pela miríade de emoções que começavam a me acalentar. Era como se eu pudesse tê-la por um ínfimo momento, como se minha mãe estivesse comigo novamente. Me entreguei às águas e comecei a boiar de peito pra cima. Com os olhos fechados, fui incapaz de perceber o quanto estava longe da margem.

Foi estranho. Senti-me ser envolvida em um calor reconfortante e flutuar...

Perdi a noção de quanto tempo fiquei assim, até tocar com a ponta dos meus pés à margem do rio. Lentamente me recompus, voltando ao meu estado (não tão normal) de lucidez. Abri e fechei meus olhos algumas vezes a fim de ajusta-los à claridade. Foi então que o vi: o meu boto. Por anos o procurei, olhando incansavelmente para as águas que me rodeavam; porém não o encontrei, ele havia sumido, completa e totalmente, até hoje! E não importa o tempo que se passou desde a primeira vez em que o vi, pois eu sabia que era o mesmo boto, o meu boto...eu o reconheceria em qualquer lugar, a qualquer hora, pois nada – nem ninguém - poderia me causar a reação que ele me causava.

- Por que você sumiu? – perguntei ansiando que ele pudesse me responder, mas em vez disso ele apenas me observava.

Aproximei-me lentamente, rezando para que ele não fugisse de mim. E ele não o fez. Apenas mantinha o seu olhar no meu. Ao tocar a sua pele, senti seu peito vibrar em um som que não reconhecia, mas que por algum motivo sabia significar que ele sentia tanta falta de mim quanto eu sentia dele.

- Nunca pude agradecer por você ter me salvado naquela tempestade. Eu iria morrer se não fosse por você.

Ele se aproximou de mim encostando sua cabeça em minha barriga, dando-me condições de envolvê-lo em meus braços.

- Michele! Michele!

Nosso abraço foi interrompido pelos gritos de minha avó.

- Preciso ir! – falei começando a me afastar, mas ele me seguiu, como se não quisesse que eu fosse. Para ser honesta, eu também não queria ir...

- Micheeeeeele! -... mas precisava.

- Tô indo, vózinha!

Parei meu movimento por um instante e voltei a olhar para aquele enigmático animal. Corri de volta para ele.

- Por favor, volte pra me ver. – pedi ao beijar sua cabeça e correr para fora do rio, juntando as roupas que estavam na bacia e indo até minha avó.

***

- Cê tá uma preciosidade, filha!

- Obrigada, Vó!

- Tu tem certeza que quer ir nessa festa? – tio Zé perguntou após uma breve inspeção pela minha roupa, pois se eu não tivesse minimamente decente não sairia de casa.

Não era de se estranhar a forma como ele surtava ao me ver chegar com as roupas molhadas agarradas ao meu corpo, revelando muito mais do que eu gostaria de mostrar... Titio fazia bem o papel de pai superprotetor.

- Tenho sim, tio! Não se preocupe, a Estrela vai comigo.

- Falando no diabo... – meu primo resmungou ao ver a minha melhor amiga chegando.

- Boa noite, Tonha! Zé! – Estrela cumprimentou minha vó e meu tio ignorando completamente o Paulo. Depois veio me abraçar.

- Tá linda, miga!

- Obrigada! – agradeci apesar de estar um pouco insegura com minha escolha: um vestido com estampa floral na parte de baixo e corpete branco, as sandálias, no entanto, me deixavam mais confiantes por serem brancas de salto alto.

- Educação mandou lembranças! – Paulo se fez ouvir.

Mas Estrela continuou a ignorá-lo. Peguei minha amiga pela mão e, após me despedir de todos, saímos.

- Até quando você irá continuar tratando o Paulo desse jeito? – perguntei já começando a ouvir a música ecoar por entre as árvores.

- Até ele pedir desculpas!

- Pelo quê? Por te dizer que é apaixonado por ti? Por você dar um fora nele e ele beijar a Inês? Ou por que, quando você se arrependeu e voltou atrás, ele bancou o difícil é te rejeitou?

- Você deveria ser minha amiga, sabia disso?

- Acredite, eu sou!

Quando finalmente chegamos, a festa estava em pleno gás. Havia uma quadrilha se apresentando e eu me animei ao ritmo da música. Nunca fui muito dada a dança, mas até que tinha ritmo. Quase uma hora depois finalmente vi o Diego. Ele estava junto com o meu primo e mais duas garotas a quem eu só conhecia de vista.

- Você não vai falar com ele? – Estrela me perguntou, em uma tentativa de me dar apoio.

- Melhor não. Ele está acompanhado. Não vê?

- Impossível não ver aquelas biscates que estão com eles.

Em um olhar solidário, resolvemos nos afastar do animado grupo e continuar aproveitando a festa. Enquanto dançávamos, a música mudou e um lundum começou a tocar.

- Ah certo, essa é a minha deixa! – disse para Estrela que já começava a dançar sensualmente com o Inácio; neto do Sebastião, que é dono na quitanda.

Estava quase fora do centro da festa, quando subitamente parei ao vê-lo se aproximar. O homem alto e misterioso estava todo vestido de branco, com a calça e a camisa de manga longa oferecendo-lhe o pudor e resguardo necessários para me atrair; a cabeça estava coberta por um chapéu que lhe cobria quase completamente a face devido à sombra projetada pela lua, revelando-lhe apenas o sorriso sedutor. As mãos e os pés eram as únicas partes realmente expostas em seu corpo. Ao meu redor, todos pareciam ter parado para vê-lo chegar, mas a verdade é que a única que parou - de fato - fui eu; e em compensação ele veio até mim.

Seu toque ao envolver minha cintura me fez estremecer e eu me permiti ser guiada por ele. Juntos nossos corpos encontraram uma cadência perfeita, acompanhando cada batida da música. Sempre achei o lundum uma música sensual demais para mim, nunca pensei que pudesse me perder nesse ritmo em frente a tantas pessoas, mas estava acontecendo! Senti a forma como a perna daquele homem se encaixava por entre as minhas enquanto nossos quadris se complementavam em movimentos combinados. Em meio ao êxtase sensual proporcionado por essa dança, abri meus olhos e finalmente reconheci aquele olhar.

- É você?! O meu boto?

O sorriso dele se prolongou por toda a face.

- Então não é apenas uma lenda besta? – estava em choque.

O homem levou minha mão direita até o seu lábio e calidamente a beijou. Eu entendi o seu gesto como um pedido para que confiasse nele, era um ato de ternura...então, me permiti ser guiada por ele.

Longe dos olhos curiosos, fui guiada até a beira do rio. Com as mãos ao redor de meu rosto, ele me trouxe para junto de si. Meus lábios, como se já soubessem o que fazer, instintivamente se afastaram permitindo-lhe o acesso. Bem diferente do que imaginei para o meu primeiro beijo, eu não o estava tendo com um garoto por quem achava estar apaixonada, mas sim com um ser que desde minha infância havia se tornado parte de mim.

Com excessivo cuidado, ele me guiou para dentro do rio. Perdida em meio às intensas sensações de que desfrutava, fui subjugada por ele. Permiti-lhe o acesso a partes nunca antes tocadas por nenhum outro homem, e nem parei para pensar se era certo ou errado. Minha mente e meu coração estavam tomados por aquele ser magnífico que me salvou a vida – literalmente.

Quando finalmente o torpor deixou meu corpo, após uma onda avassaladora de intenso prazer. Um clarão iluminou a água ao meu redor, evidenciando o rastro de sangue pela perda de minha inocência; subsequente a ele,o homem foi substituído pelo boto, que se aproximou de mim em busca de um novo contato. Minha pele, ao tocar a sua, reconheceu as similaridades e as diferenças entre o homem e o animal.

- Michele? Você está aí?

A voz de Paulo rasgou as árvores, fazendo-me interromper o momento. Porém antes de me afastar, precisei perguntar:

- E agora, depois que a lenda virou realidade, voltarei a te ver? – meu boto acenou que sim. - Esperarei um filho seu? – novamente o mesmo gesto.

O boto começou a se afastar, deixando-me para trás; medo e a incerteza me abateram, mas decidi encarar o que estava por vir. Não haveria mais volta. Eu fui seduzida e agora teria um filho do boto. O que esta criança iria se tornar somente o tempo poderia me dizer.

- Prima, você está bem? – A voz de Paulo estava assombrada, olhando de cima a baixo para o meu corpo ensopado.

- Foi o boto! Ele fez isso com ela! – A voz de Diogo despertou uma ira profunda em mim e passei por ele esbarrando em seu braço.

- Isso não lhe diz respeito.

Deixando os dois e minha amiga assustada para trás, caminhei até a casa de minha avó, pronta a encarar o meu destino.

(Continua...)

***

E aí, amores? Gostaram do texto?
Se sim, por favor deixem o seu comentário, ok!? Adoro saber a opinião de vocês!

Beijinhos e até a próxima semana!

Suellen Mendes